Vícios infantis: saiba quando é a hora de se preocupar com os hábitos frequentes dos pequenos

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(Imagem: AdobePhoto)

Seu filho não quer saber de largar a chupeta? Ou então carrega para todo lado aquele paninho desgastado, sujinho e amassado, que não larga nem para passear? Se essa cena lhe parece familiar, saiba que não está sozinha nessa causa. Muitas mães e pais vivenciam com intensidade essas atitudes dos filhos. Mas até que ponto isso é considerado saudável? Ou a partir de que momento pode ser designado como um vício?

Chupar o dedo ou a chupeta, carregar a “naninha”, um bichinho de pelúcia, enrolar cabelo, mexer na orelha, etc. são alguns dos comportamentos e objetos com os quais as crianças costumam criar dependência emocional. “Quando se sentem desamparadas ou inseguras, lançam mão de seus apegos”, diz a psicoterapeuta Aline Gomes.

Como isso acontece?

Isso ocorre porque o bebê sente necessidade de minimizar a angústia que aparece quando está longe da mãe, do pai ou do cuidador de sua confiança. Nem precisa ser algo que dure horas. Se ele simplesmente acordar e perceber que a mãe não está por perto já é o suficiente para a angústia brotar. “Contudo, mamães, por favor, entendam que essa angústia não é ruim. Não precisa viver agarrada ao bebê para evitar que ele se sinta desta forma. É que o bebê nasce acreditando que mamãe e ele são um ser único. Com o passar dos meses ele percebe ser distinto da mãe. É aí que surgem as primeiras – e necessárias — angústias para o desenvolvimento saudável do indivíduo”, frisa Aline.

Ritual de passagem

O hábito pode começar naturalmente, quando a própria criança passa a cultivar alguma ação própria, como mexer no cabelo, na ponta da camiseta ou chupar o dedo; ou introduzido pelos cuidadores, quando estes oferecem a chupeta ou colocam uma fraldinha próxima à criança para ela dormir.

Os especialistas dizem que esses hábitos podem ter início por volta dos quatro meses e demarcam um importante ritual de passagem. “Eles aparecem sempre que há uma fase de transição, retirada da mamada, das fraldas, mudanças em casa, convívio com pessoas diferentes, mudanças na rotina”, ressalta Roberto Debski, psicólogo e médico.

Quando faz uso de um bichinho de pelúcia, fraldinha, chupeta, o pequeno está buscando apenas uma segurança emocional para atravessar bem as fases de sua vida. “O padrão dos fenômenos transicionais começa a surgir entre quatro e seis meses até os oito e doze meses de idade. Tais padrões podem persistir na infância, de modo que o objeto macio original continua a ser absolutamente necessário na hora de dormir, em momentos de solidão, ou quando um humor depressivo ameaça manifestar-se”, diz a psicanalista Fabiana Benetti.

É um vício?

Pode até parecer uma graça ver um bebê arrastando seu paninho pela casa ou chupando o dedo enquanto dorme. Porém, à medida que a criança cresce, os pais começam a se preocupar com a extensão desses hábitos. Para Fabiana Benetti, isso não representa um vício, propriamente dito.

 

“Esses processos do bebê com OBJETOS DE ‘APEGO’ não são manias, mas sim EXPRESSÃO DO DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO do sujeito. Podemos dizer que o bebê se apega ao objeto como um substituto de algo evocativo para apropriação de si mesmo. O objeto é anterior ao símbolo, à palavra e à diferenciação do interno e do externo da criança.”

 

Pressão da família

Para muitos pais, o hábito muitas vezes se torna motivo de tensão, pois eles temem que este apego possa fazer mal ao pequeno. A psicoterapeuta Aline Gomes tranquiliza, dizendo que, de imediato, não há com o que se preocupar. “Nem todas as crianças iniciam relação com objetos transicionais – o que também é muito natural. O contrário é que pode não ser muito saudável para a criança. Ou seja, o bebê que sente necessidade de um objeto e é tolhido pelos pais ou responsáveis quando estes retiram sempre que percebem que o bebê solicita o apego”, destaca.

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Imagem: AdobePhoto.

Até quando?

Para alguns especialistas, uma boa idade para o abandono desses objetos de apoio seria por volta dos 3 anos; outros dizem que até os 5 anos é tolerável. Já Aline ressalta que não há idade certa para largá-los. “É comum a criança insinuar não querer mais o objeto, porém, ao se ver diante de alguma situação delicada – como doenças, mudanças ou rupturas – pode desejar tê-lo de volta. Nesses momentos mais delicados, a presença efetiva de um cuidador-referência é de suma importância para que possa transpor o período com mais segurança”, diz.

Ela explica que o desapego acontece de forma natural. “Ela começa a dar sinais de desinteresse pelo objeto e, simultaneamente, aparenta estar com mais autonomia e segurança. O fato de conseguir expressar os sentimentos – verbalmente, por exemplo – também contribui para a menor dependência do objeto.”

Até os 3 anos…

O que acontece é que tanto o hábito de chupar o dedo quanto o de chupar chupeta pode ocasionar o surgimento de futuras dificuldades no desenvolvimento da dentição infantil e da fala. Isto, porque, durante a sucção, a língua tem a sua posição deslocada, mantendo-se abaixo da chupeta ou do dedo. “Por isso mesmo é que se recomenda o abandono do uso da chupeta e do dedo gradualmente até os 3 anos de idade”, reforça Fabiana.

Mas não é fácil!

Nem sempre os pequenos abandonam facilmente esses ritos. Mesmo com inúmeras tentativas dos pais, eles insistem no hábito, fazem birra, choram e sentem-se inseguros em deixar de lado seus “melhores amigos”.

Aline diz que, infelizmente, não há uma “receita de bolo pronta” para ajudar os pais nesse momento. “A boa notícia é que elogios quando a criança consegue ficar sem o objeto, por exemplo, costumam ajudar no desuso. Evitar retirar em momentos delicados (mudança, separação, doença de algum membro da família, chegada de um irmão, etc.) é fundamental para o sucesso do desapego e para a segurança emocional da criança a médio e longo prazos.”

Por Rose Araujo
Entrevistas: Jacque Lopes
Nossas fontes
Aline Gomes, psicoterapeuta
Fabiana Benetti, psicanalista
Roberto Debski, psicólogo, médico e diretor da Clínica Ser Integral

 

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