Pais não devem terceirizar para a escola funções de sua responsabilidade, alerta especialista

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“A família e a escola podem colaborar para a construção da identidade de crianças e jovens atuando como parceiros”. Essa afirmação é unanimidade entre os especialistas em educação que acreditam nesse princípio para uma promoção do desenvolvimento integral do indivíduo. Segundo o filósofo e professor titular na Unicamp, César Nunes, “a escola, para ser um agente de humanização, tem que ter relações orgânicas com a família e com a sociedade”. No entanto, existem diferentes papéis e funções formativas entre elas, embora tanto escola como família contribuam e se articulem na formação das crianças e dos adolescentes.

 

Para o professor, a família não deve terceirizar para a escola as funções e as bases educacionais que são de sua responsabilidade, tais como a formação moral, a educação ética e social. Mas os pais podem (e devem) participar intensamente da vida educacional, cultural e escolar de seus filhos.

 

Nunes explica que participar não é somente investir numa boa escola, cobrar os conteúdos ou manifestar atitudes similares. “Participar é acompanhar plenamente o desenvolvimento dos filhos, com base em uma premissa de que é preciso acreditar que cada pessoa é uma versão única e original de vida: acompanhar os filhos nessa apropriação da humanidade, ajudá-los no desenvolvimento de suas identidades e na formação de seu caráter, aceitar as características deles, reforçá-los em suas escolhas, apoiá-los em suas decisões!”, enfatiza. E continua: “os pais presentes na vida moral, cultural e educacional são a luz para os filhos.”

 

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Confira a seguir uma entrevista com o especialista sobre o tema:

 

Quando falamos em educação, o que é de responsabilidade da escola?

 

À escola cabe formar a criança na continuidade da formação familiar, com ênfase na aquisição de conhecimentos, nas atitudes e condutas, nas posturas pessoais e coletivas, diante dos fenômenos institucionais e vivenciais. Cabe à escola solidificar os valores, acentuar e legitimar as práticas de solidariedade, de responsabilidade, de sustentabilidade, mas o lugar do nascimento e o reforço estrutural dessas práticas é na família. E, de algum modo, é também a sociedade, os seus espaços e as suas expressões que atuam num processo coadjuvante de formação da criança e dos adolescentes iniciados na família e fortalecidos pela escola.

 

Como a escola e a família podem colaborar com o desenvolvimento dos jovens?

 

A família e a escola são os universos matriciais da humanização, do desenvolvimento humano, social e subjetivo das crianças e dos adolescentes. Tanto a família quanto a escola precisam acreditar que o exemplo é a melhor prática educativa. Não adianta fazer discursos e sermões para os estudantes, ou ainda fazer preleções para os filhos sobre as coisas, sem o devido acompanhamento da coerência e da verdade.

Para ser educador, pais e mães educadores, para se tornar e ser reconhecido como um professor-educador, é preciso ser verdadeiro, estar convencido de alguns princí­pios e agir como exemplo vivo. Se os pais exigem leituras, a melhor forma de educar é sentar junto com os filhos e ler com eles um livro, contar histórias, conversar, brincar. Exigir que as crianças leiam e nunca ser visto em práticas de leitura é um dos exemplos clássicos de incoerência. E se torna o paradigma de outras atitudes.

 

Quais mudanças são necessárias nesse contexto?  

 

A grande e inalienável tarefa da família é a de amar e acolher seus filhos e filhas. A grande lição da escola é a de dar continuidade a essa experiência gratuita de amor e de acolhimento, com a consequente função de encaminhar a criança e os adolescentes no mundo da cultura, na convi­vência com os diferentes, na ampliação do universo familiar. Saber e conhecer são valores socialmente muito importan­tes, mas tem que ter parâmetros éticos e políticos voltados para a promoção da vida, para a prática da liberdade, para o respeito às diferenças. Não posso ter a presunção de que o saber esteja acima da vida, da igualdade humana. Não pode a erudição superar a sabedoria. Só há dois caminhos para a felicidade: a ética – cultivar valores pessoais e grupais, e a política – estabelecer consensos coletivos altruístas, elevados, inspiradores. Temos que aprender sobre as coisas, sobre o mundo, para sermos pessoas melhores, solidárias e sensíveis.  

 

O que falta na formação dos estudantes?

 

Nossos estudantes gostam de ver pessoas sinceras e comprometidas com as causas da sustentabilidade ambien­tal, do compromisso social e da ética. Esses princípios têm que estar no projeto pedagógico da escola, no dia a dia, nas práticas de acolhimento e de convivência entre os mestres, dos mestres com os estudantes e entre os próprios estudantes. A escola que ensina e prepara os seus estudantes para compreenderem o mundo do trabalho, da política e da cultura convoca todos para darem sua palavra e contribuição. Só uma geração de professores e gestores humanizados, críticos, sensíveis e participativos produz uma geração de estudantes sensíveis, críticos e humanizados.

 

E qual o seu conselho aos pais?

 

Para ser um pai (ou uma mãe) do passado, com os erros e contradições do próprio passado, nós temos expe­riências históricas já prontas e acabadas, convincentes até. Mas, para sermos os pais e mães numa sociedade de novos direitos e novos deveres, temos que aprender com os filhos, com o tempo, com as contradi­ções e com as conquistas atuais. Há que se aprender entre as gerações. Nós, pais, temos que ter a grandeza e a coragem de conversar com nossos filhos e aprender com eles. É preciso educar para ser pessoa, para ser um ser hu­mano pleno. Essa é a grande lição e o lema da escola. Educar para a humanização dos afetos e dos conhecimentos. Família e Escola são convidadas a construir esse novo mundo.

 

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